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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Então é Natal...

O Natal, festa tradicionalmente católica com o intuito inicial de celebrar o nascimento do menino Jesus, como não podia deixar de ser, foi incorporada rapipidamente ao way-of-life (se é que se pode denominar assim) capitalista. Hoje, acho que para maioria dos brasileiros, Natal é sinônimo de Dezembro, Verão, décimo terceiro salário, compras de final de ano, impostos extras (IPTU, IPVA, ...), peru e pernil, Papai Noel. Jesus parece mais com figura secundária, embora a festa seja tradicionalmente sua. Talvez seu papel principal ainda não tenha sido ofuscado no presépio, nem no coração dos mais religiosos ou daqueles com menos poder aquisitivo, para os quais Natal é sinônimo também de renovação de forças e esperanças, fundamentadas, basicamente, na fé.
Apesar de tudo, ainda acho o Natal uma data bacana. Natal é época de rever os familiares mais próximos e também os distantes, de viajar com a família, é hora de começar a pesar o que foi feito de bom e de ruim ao longo do ano, é tempo de início de férias, do início do calor escaldante aqui na Cidade do Sol (Natal/RN), daquelas comprinhas animadoras (não vou negar que adoro compras de final de ano, rs). Tudo bom demais!
Só tem um porém: tudo bem que é Natal, que algumas pessoas/lojas/repartições 'incorporam' o espírito da época, mas ninguém merece aquelas musiquinhas instrumentais mais que batidas e enjoativas estilo Jingle Bell ou então (como bem disse o nobre Vinícius hoje na mesa de um restaurante de comida chinesa) aquela velha música cantada por Simone ('Então é Natal... E o que você fez?...'). A data é a mesma, todo ano tem, mas um repertório novo não faria mal a ninguém.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A Menina Que Toda Boneca Queria Ter

“A menina que toda boneca queria ter” – pensou a bebezinha gorducha. E era mesmo verdade: as bonecas enfileiravam-se para serem cuidadas pela sua tão estimada dona; e era uma estima real, visto que, até então, a menina era filha única e morava numa rua de poucas crianças. As bonecas eram mais do que companhia – eram companheiras de boas risadas, de choros contidos, de diálogos infindos sobre os mais variados e fantasiosos assuntos que uma criança pode conseguir desenvolver.

Desde novinha a garotinha se mostrava especial, a começar pelo nome pouco comum e que, muitos anos à frente, uma fiscal de sala observou sabiamente que era um nome digno de grandes pessoas. Aprendera a ler e a escrever aos três anos de idade, mas antes disso já falava pelos cotovelos (era a menina dos ‘porquês’); e até gostava de conversar com gente grande, uma vez que seu corpo diminuto abrigava uma alma infinda, adquirida ainda no ventre da mãe; gostava também de cantarolar junto com o pai as suas canções preferidas dos beatles, num inglês ainda primitivo, durante as viagens de família.

Havia um verdadeiro ritual de cuida: que ia desde lições no quadro-negro até uma canção de ninar ou um conto de fadas, dependendo do gosto das bonequinhas (a menina respeitava a individualidade de cada uma). Quando todas já estavam dormindo, o silêncio permitia que a garotinha se dedicasse à sua lição de casa e até mesmo lê-se os livros da estante dos pais, enquanto sua mãezinha dormia. E foi assim que ela descobriu precocemente Drummond, poesia, auto-ajuda, psicanálise, religião, arquitetura medieval, a teoria introdutória do direito, mas também descobriu Hitler (numa biografia já amarelada que ela releu nas últimas férias e achou genial, embora aterrorizante), as guerras, o nazismo e tantos outros temas que a minha mente ocupada por reações químicas, descrições de processos metabólicos e conceitos físicos já não me deixa recordar.

E as bonecas iam sendo abandonadas, sem entender o porquê de serem trocadas por pedaços de papéis cheios de palavrinhas complicadas. Elas ainda tentaram, em vão, esconder os tais papéis, mas a menina era esperta e descobria o esconderijo de um por um dos livros. Até os duendes ficaram enciumados, já que a menina não mais conversava com eles, nem pelo pote de ouro ela perguntava, nem mais acenava do carro quando via os cogumelos-gigantes-de-chapéu-vermelho-e-bolinhas-brancas.

As bonecas ficaram cada vez mais esquecidas em baús embolorados. E aquele mundo de magia que permeava o quarto da menina esvaiu-se. Mas em certas manhãs chuvosas, elas merecem ser recordadas, com aquelas recordações de amizade sincera que o tempo não pode apagar, com um saudosismo redundantemente nostálgico daqueles tempos em que a magia era menos vinculada às páginas dos livros e às cenas dos filmes, em tempos que as pessoas pareciam boas e sinceras, e que a maldade ficava restrita aos livros de guerra; embora uma pitada de sarcasmo pudesse, na opinião da menina já crescida, tornar uma conversa mais interessante.

E a bebezinha gorducha nem percebia o baú fechar lentamente, seus olhos de amêndoas estavam fixos na sua menina já crescida; eram olhos de alegria por tê-la perto, por sentir seu abraço quentinho de mãe, e por perceber que ainda havia no coração dela aquele amor puro, ingênuo e despretensioso. E notou que, dentro em breve, a sua menina se tornaria uma mulher especial, embora ainda calçasse o mesmo modelo de all star de tantos anos atrás; e pensou, tendo um leve calafrio, que se fosse criada com aquele sarcasmo atual, teria se tornado igualzinha ao Chuck – entendendo que as bonecas realmente estão presentes nos momentos certos. Fechou os olhos e dormiu profundamente, esperando que sua menina crescida fosse mãe, para dar a sua alegria para outra criança.
- Deus conserve para sempre o meu bom senso temperado a pitadas de loucura.

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Uma pequena criatura semi-leiga em muita coisa, mas metida o suficiente para dar palpite em quase tudo. beijosaindasereimanchete!
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